15/12/2015
Escrito por DCI
Disputa por segmento premium de cervejas ficará mais acirrada em 2016

Grandes fabricantes miram nas linhas de maior valor agregado para ampliar ganhos. Produção de cervejas especiais deve crescer cerca de 8% em volume e até 25% em faturamento no próximo ano

São Paulo - O mercado de cervejas premium deve ficar mais acirrado em 2016. Isso porque, diante da retração da demanda interna, as grandes indústrias devem investir mais em produtos de maior valor agregado para manter a lucratividade.

De acordo com o coordenador do curso de Administração dos Negócios da Cerveja da Fundação Getulio Vargas (FGV), Tulio Rodrigues, as estimativas mais otimistas para o segmento premium são de alta de 12% a 25% no faturamento no ano que vem sobre 2015, impulsionado, principalmente, pelo aumento nos investimentos em divulgação.

Em volume, segundo ele, a previsão de crescimento varia entre 8% e 25% na passagem de 2015 para 2016.

"As minhas expectativas são até contrárias a esses números, porque o cenário econômico não está definido e a retração do mercado todo pode ser maior que a esperada", disse. A opinião pessoal dele é que, se o cenário econômico não mudar nos próximos meses, o segmento deve ter alta no ano que vem de 12% e 8% em faturamento e em volume, respectivamente.

Rodrigues observou que o mercado de cerveja, em geral, já começou a dar sinais de desaceleração este ano. Dados do Sistema de Controle de Produção de Bebidas (Sicobe), da Receita Federal, revelam que a produção acumulada em 2015, até novembro, caiu 2,2% ante 2014.

Pressionadas pelo encolhimento da demanda, as gigantes do setor devem apostar todas as fichas no segmento premium no próximo ano. "A perspectiva para o Brasil no curto prazo não é boa e não sabemos o que vai acontecer em 2016. Mas a Heineken mantém investimentos no País e acredita que o mercado premium vai crescer mais que a média geral", disse o presidente da Heineken Brasil, Didier Debrosse, recentemente, em evento do setor na cidade de São Paulo (SP).

Já o presidente da Ambev, Bernardo Pinto Paiva, disse, no mesmo encontro, que as fabricantes de bebidas devem acertar seus portfólios para atender a nova demanda por cervejas especiais.

"Expandir as opções de cervejas em um momento em que o brasileiro bebe vinho ou vodka também é bom para as empresas, e a inovação nos produtos ajuda nisso", comentou ele. No terceiro trimestre, as vendas do segmento premium representaram 9% do volume total de cervejas comercializadas pela Ambev no País.

Tulio Rodrigues ressalta ainda que as investidas das gigantes sobre empresas de menor porte também deve sustentar o mercado premium em 2016. "Esse movimento das grandes indústrias, como a Ambev que comprou marcas de cerveja artesanal no último ano, pode ajudar a impulsionar o segmento", afirmou o professor.

 

Artesanal

No entanto, Rodrigues não vê as cervejarias de menor porte, com produção artesanal, perdendo espaço para as grandes fabricantes. "Não acho que isso deve atrapalhar as [cervejarias] artesanais, porque possivelmente os consumidores que migram de uma marca popular para premium, depois vão querer provar outras cervejas", avalia do especialista.

Mas o diretor da marca Cerveja Mediterrânea, Cosmo Pacetta, revelou ao DCI que, desde outubro, o volume de encomendas caiu bastante. Ele atribuiu o movimento a incerteza dos varejistas.

"Estamos preocupados, porque tivemos queda nas vendas nesses dois últimos meses e, mesmo que no início de dezembro tenham surgido algumas encomendas, a expectativa é muito incerta para o próximo ano", destacou o executivo da indústria Folhas de Oliva, dona da Mediterrânea.

Pacetta disse esperar que, embora a alta do dólar em relação ao real nos últimos meses tenha elevado o custo com matéria-prima importada, no próximo ano os produtos da marca possam se apresentar mais competitivos frente aos rótulos importados.

"O que pode anular esse ganho na diferença de preço contra as importadas é a alta dos impostos para a indústria cervejeira, que pode tornar o produto nacional mais caro", ponderou o executivo.

A Cervejaria Berggren também espera ser beneficiada pelo aumento do preço das cervejas importadas e observa uma mudança na concorrência. "Percebemos que o varejo não está mais aceitando o modelo das grandes cervejarias, que antes definiam sugestões de oferta de consumo para os estabelecimentos, tirando espaço das artesanais. Hoje, essas grandes indústrias é que estão procurando rótulos de cervejas especiais", afirmou o diretor-geral da cervejaria, Lucas Berggren.

A Cervejaria Schornstein, há 10 anos no mercado, é uma das fabricantes que mais crescem no segmento e já chamou atenção das grandes empresas. Segundo o diretor da empresa, Adilson Altrão, a marca foi estudada por empresas do setor, mas nenhuma oferta foi oficializada pelas concorrentes.

"Como temos dois investidores com forte participação, não existe o interesse em vender, mas também não é uma possibilidade para se descartar", afirmou Altrão. A fabricante deve encerrar este ano com aumento de 70% no volume produzido sobre 2014.

O diretor da Schornstein atribuiu a disparada na produção, em um ano de mercado mais pressionado, aos investimentos em marketing, que têm estimulado a demanda pelas cervejas da marca.

"Queremos continuar ampliando a presença nos pontos de venda em 2016, para atender a essa demanda reprimida", afirmou Altrão.





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