12/09/2014
Escrito por Prof Dr Mauro Fisberg

Um dia na vida de uma mulher seguindo a alimentação natural... uma parábola

Prof Dr Mauro Fisberg
Professor associado do departamento de Pediatria da Escola Paulista de Medicina- UNIFESP, Coordenador do Centro de Dificuldades Alimentares do Instituto Pensi- Hospital Infantil Sabará, Coordenador da Força Tarefa Estilos de Vida Saudável ILSI Brasil
 
Acorda às 4:30hs da manhã para preparar o café do marido e filhos. Vai ao estábulo e ordenha a vaca para retirar leite. Após 15 minutos da ordenha, começa a preparar a massa para o pão, com a farinha que moeu no dia anterior e com o trigo de sua plantação. Verifica que não tem mais fermento, e a massa não mescla. Não consegue fazer o pão crescer e sovar. Resolve deixar como está. Utiliza a manteiga que bateu no final de semana anterior, e que está um pouco rançosa. Não pode fazer café por que o grão que comprou na última semana na feira está com carunchos. Resolve fazer chá de ervas que colhe na sua horta domiciliar. 
 
Às 5hs da manhã acorda seu marido, e após o chá da manhã, prepara o lanche para seu marido e filhos. Corta um pedaço do bolo de cenoura da sua horta, com farinha de seu trigo e açúcar que extraiu com seu moedor de cana. A rapadura esta um pouco dura, mas será o complemento do chá e do pão endurecido. Corta um pedaço do queijo duro que preparou há semanas. 
 
Às 5:30hs desperta seus filhos e estes se recusam a tomar o chá e comer o pão endurecido. Resolve preparar um iogurte, batendo o leite com fermento e de repente se lembra que não tem fermento. Manda as crianças para a escola na van escolar, pensando que às 9:15hs terão um lanche refeição. 
 
Às 6hs começa a preparar o almoço do dia para as crianças. Deixa o arroz do mercado a granel em banho e começa a colher os grãos de feijão para retirar as sujeiras. Corta um pedaço da carne do porco que foi abatido no final de semana e deixa de molho para salgar. Prepara o feijão na panela de pressão, e refoga o arroz com pimenta, tomate e salsa de sua horta. Não tem sal, por que o mercado só tinha o produto marinho, que era muito caro. 
 
Vai trabalhar às 7hs e chega a casa da patroa às 8:30hs onde ficará até às 19hs. 
 
Às 12:30hs as crianças chegam da escola para o almoço, onde são recebidos por uma vizinha e reclamam que na escola só havia uma bebida parecida com um suco aguado e bolachas caseiras da casa da merendeira. Não houve almoço na escola. 
 
O almoço com arroz, feijão, carne e alface e tomate da horta não é aceito pelas crianças que reclamam que não há tempero na comida. As frutas que havia em casa haviam acabado, já que a banana havia enegrecido e as laranjas não estavam doces. 
 
As crianças ficam sozinhas na casa todo o período da tarde, sem televisão, e sem possibilidades de sair a rua, já que o terreno onde moram está ao lado de uma avenida movimentada. Não são supervisionadas por ninguém todo o período. Comem biscoitos caseiros e água da torneira toda a tarde. 
 
A mãe ao voltar a casa, passa em um mercado próximo ao trabalho, onde poderia comprar massas prontas a granel, mas o horário do ônibus não permitiu que chegasse a tempo. Lembra-se que não tem outros produtos em casa, mas não consegue imaginar onde poderá comprar produtos a granel e preparar o jantar de casa. Não conseguiu comprar temperos, sal e grãos. Tem ainda o arroz e feijão que havia sobrado do almoço para fazer o jantar de sua família. A carne ainda poderia ser utilizada, e a gordura serviria para fazer outros pratos e a pele para fazer torresmos. 
 
Chega em casa às 21hs e começa a preparar o jantar, mas seus filhos já dormem esgotados de tanta inatividade. Espera o marido que chega às 23hs e não tem mais comida suficiente. 
 
Vão dormir às 23:30hs para acordar novamente às 4:30hs e ela se lembra que não tem nada em casa para o almoço do dia seguinte...